Transformar a cozinha em praça de guerra está errado

Por Marcos Nogueira
Uma foto do Gordon Ramsay invocadão para deixar bem claro que este post não é sobre o “Master Chef” (foto: Divulgação)

Meu texto anterior, publicado após a final do “MasterChef Profissionais”, causou reações exaltadas. Costumo ignorar os haters, mas desta vez fui criticado com argumentos sólidos por gente que eu admiro. Devo satisfações.

A crítica mais contundente se refere ao fato de eu falar de um programa que não assisti.

Não vi mesmo, não verei sem um bom motivo e mantenho minha posição. Uma leitura atenta percebe que a postagem não fala do “MasterChef”, mas do formato das competições televisivas de culinária. Usei o específico – a exibição da final do programa – como mote para criticar o geral, em um texto que poderia ser publicado em qualquer outra ocasião. Foi uma manobra retórica brusca e mal sinalizada. Sinto-me na obrigação de redesenhar minha linha de pensamento.

Deixemos de lado o “MasterChef”: a Paola é uma querida, não quero confusão com o Fogaça e não tenho opinião formada sobre o Jacquin e a Ana Paula Padrão.

Falando em termos gerais, eu acho essencialmente errado transformar a cozinha em uma praça de guerra. Vai de encontro ao papel que a alimentação e o cozinheiro representaram ao longo da história.

A refeição é uma hora de extrema tensão para as zebras que pastam sob o Kilimanjaro – não deveria ser assim para os humanos do século 21. A guerra, a peste e a fome nos ensinaram um punhado de coisas. Entre elas, que não vale a pena brigar o tempo todo. A cooperação deu origem à civilização.

Pessoas civilizadas entendem as refeições como um momento de trégua. Mesmo na guerra mais feroz, presume-se que a trégua será respeitada. É em volta de uma mesa com comida que os inimigos tentam negociar, que os adversários deixam as diferença de lado, que os desafetos baixam a guarda temporariamente. À mesa, deve-se relaxar e gozar – sem piadinhas de duplo sentido.

O trabalho do cozinheiro, quando bem-feito, tem por objetivo proporcionar a experiência mais agradável possível para quem come. Na cozinha, como em qualquer outro ambiente de trabalho, deveriam prevalecer a colaboração e a civilidade. Se alguma das mais admiradas cozinhas do mundo são uma selva com psicopatas e puxadores de tapete, só há uma explicação: elas são disfuncionais.

Estimular a competição feroz (e muitas vezes desleal), como fazem os reality shows culinários, é uma subversão da ordem que me desagrada. Eu só quero relaxar. E gozar a experiência.