Osso com arroz quebrado, novo prato típico do Brasil

O prato mais típico do Peru é o ceviche. Da Inglaterra, peixe frito com batata. Da Espanha, paella. E do Brasil? Que comida representa melhor a nossa cultura alimentar?

Pode ter sido a feijoada. Ou o nababesco rodízio de churrasco, orgia cárnea já exportada para os países ricos. Dois símbolos da fartura que não combinam mais com a realidade brasileira.

Em 2021, nossos pratos típicos são os fragmentos de arroz. Os ossos que o açougue antes enviava para a fábrica de sabão. O pé de frango.

Se no ano passado as pessoas foram pegas de calças curtas com o aumento absurdo do arroz, neste o setor arrumou uma solução mandrake para a carestia: vender no supermercado os tais fragmentos de arroz, menos caros.

São, basicamente, grãos quebrados que antes tomavam bomba na triagem que a indústria faz antes de ensacar o cereal. Essa quirera ia para a fabricação de farinhas e ração animal, ou para a indústria cervejeira.

Para completar o refugo arrozeiro, as pessoas vão atrás da proteína que podem comprar –como o pé de frango, que voltou a aparecer nos açougues e supermercados.

Quando não podem comprar nem isso, fazem fila nos açougues atrás dos ossos que seriam descartados. Virou notícia em Cuiabá, Mato Grosso. Mas acontece em todo o Brasil. Todos os mercados de áreas de classe média têm pedintes na porta, implorando por leite, biscoitos, açúcar, farinha.

Cacos de grão de arroz, assim como o xerém de milho, têm seu valor em algumas receitas… em geral, aquelas da cozinha camponesa, cozinha de pobre. O mesmo vale para os ossos e os pés de frango: são indispensáveis para um bom caldo. Essas comidas não são o problema.

O problema é a falta de escolha, fruto da miséria.

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