Por que os entregadores de comida não nos matam?

O almoço veio de moto, como tem sido comum. Quando a comida saiu do restaurante, o aplicativo me enviou uma mensagem com o nome do entregador: Francisco Nogueira.

“De repente é primo.” Num instante, matutei sobre o homem que traria a minha boia. No instante seguinte, passou. Sempre passa, mais rápido do que uma 125 com escapamento aberto.

A massa de motociclistas a serviço das empresas de entrega é invisível para nós, clientes exilados dos restaurantes de patrão. Mas às vezes pensamos neles.

Pensamos neles quando o retrovisor é arrancado por uma moto à toda, entre as faixas de rolamento da avenida Rebouças.

Pensamos neles quando a comida começa a demorar mais do que desejávamos.

Pensamos neles quando vêm dando grau –empinando a moto– pelo caminho, e o queijo derretido escorre todo para uma só banda da pizza.

Nas outras situações, somos indiferentes. Dá para ser pior.

Tome o pateta de camiseta azul que esfregou o indicador direito no antebraço esquerdo, para mostrar a pele branca, e disse ao motoboy do iFood: “Você tem inveja disso aqui, morou?”.

Foi no condomínio Vila Bela Vista, em Valinhos (SP), alguns meses atrás.

Nesta semana, veio à tona um episódio igualmente aterrador de racismo contra um entregador de comida. De Goiânia. Longe do interior paulista pela estrada, vizinha no espírito que une os condominions, perdão, condomínios da elite brasileira.

O portador foi barrado na portaria da Aldeia do Vale –são bucólicos todos os nomes dos xangrilás de branquitude. Pelo aplicativo, a cliente mandou três recados à lanchonete.

O primeiro: “Esse preto não vai entrar no meu condomínio”.

O segundo: “Favor mandar outro motoboy que seja branco”.

O terceiro: “Eu não vou permitir esse macaco”.

Sorridente por trás da máscara, o motoboy goiano gravou um vídeo para agradecer a solidariedade nas redes sociais; o entregador paulista foi altivo, mas polido, enquanto respondia à chuva de ofensas. Tratou por “senhor” o vomitador de impropérios. Sintomático.

Ambos foram pacíficos ante a agressão abominável.

***

Lá pelas tantas em “Django Livre”, Calvin Candie –fazendeiro do Mississippi interpretado por Leonardo DiCaprio– põe uma caveira sobre a mesa de jantar.

O crânio pertencera ao velho Ben, escravo de companhia do próprio Calvin, de seu pai e do pai de seu pai.

“Eu passei a minha vida toda bem aqui, rodeado de rostos pretos”, conta o sinhozinho do filme de Quentin Tarantino. E pergunta: “Por que eles não nos matam?”.

Se tão mais numerosos, por que não se rebelam?

No filme, Candie justifica a submissão com frenologia –baboseira pseudocientífica em voga no século 19. Lixo racista que não explica nada.

A pergunta de Calvin Candie ainda está no ar. Ela vale para os entregadores de comida. Vale para as domésticas. Para os porteiros, balconistas, garis, a criadagem em geral.

Por que eles não nos degolam e põem a cabeça sobre a mesa de jantar? Talvez seja melhor não saber.

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